O sal da língua
Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém — mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco mais.
Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas Neto, nasceu em Póvoa de Atalaia, pequena aldeia da Beira Baixa, no dia 19 de janeiro de 1923.
Filho de camponeses, após a separação dos seus pais, passou a infância em companhia da mãe. Com sete anos de idade mudou-se com a mãe para Castelo Branco.
Em 1932, muda-se para Lisboa, onde frequentou o Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro. Em 1935, já mostrava o seu interesse pela leitura, passando horas nas bibliotecas públicas.
Em 1936, Eugénio de Andrade começou a escrever seus primeiros versos.
Em 1947, em Lisboa, tornou-se funcionário público, exercendo durante 35 anos a função de inspetor administrativo do Ministério da Saúde.
Em 1948 publicou o livro “As Mãos e os Frutos”, que recebeu elogio dos críticos literários. Em 1950 foi transferido para o Porto.
Paralelamente ao cargo público, Eugénio de Andrade publicou mais de vinte livros de poesia, publicou obras em prosa, antologia, livro infantil e traduziu, para o português, livros do poeta Frederico Garcia Lorca, José Luís Borges, René Char.
Faleceu na cidade do Porto no dia 13 de junho de 2005.
(https://www.ebiografia.com/eugenio_de_andrade/, acedido em 19 de janeiro de 2023)